Vestido amarelo


cercado de joelhos
e de costas de fora

busco o naufrágio
e sobrevivo feliz
na cor do tecido
que não esconde
mamilos e pêlos das coxas

gema de ovo
milho ralado
pequi
pitadas de açafrão
florada de ipê

poderia ficar enumerando
aqui
tudo que o cerrado traz
de amarelo

e seguiria o vento
que separa o vestido
e tuas pernas
traduzindo
os mistérios da dança
e as acepções da palavra
vaporosa

e por mais que esteja
quente e seco
e que demore as chuvas de setembro
que tardarão somente em outubro

meu pensamento branco
despe tua pele húmida

e ainda noite
brilha o princípio
que nenhum alquimista imaginou
recende o cheiro vidente
dos primeiros raios da alvorada
que virá
após teu corpo

e só agora
entendo
o porquê desta fixação
pela cor amarela

são tuas ilhas
de dunas
pálidas e árabes

as minhas

AL-Chaer

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