A memória do céu
Não preciso de menos que todos os meus amigos
mas dizem-me que a teus ouvidos já a voz não soa
nem sabes já como neste mês de Outubro
chega a ser agradável passear por Lisboa
Não comes castanhas não sentes o frio
nem mais connosco te sentas à mesa
Qual é a tua nacionalidade
tu que antes eras portuguesa?
Cansaste-te e foste-te embora
não passarão por ti mais primaveras
fosses pra onde fosses foste decerto
para o país donde afinal eras
As coisas todas pouco mudaram
sabem-nos bem alguns bocados
e no entanto tudo mudou
já não nos sentimos por ti olhados
Falamos de ti no passado
como se tu estivesses morta
mas tu és tudo e tivesse eu casa
tu passarias à minha porta
Não preciso de menos que todos os meus amigos
não te vemos mas estás connosco
se não ao lado dentro de nós
no frio de Março no calor de Agosto
Nos dias de hoje ou nos tempos antigos
não preciso de menos -que todos os meus amigos
Ruy Belo
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