A Poesia de Paulo Leminski


Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.

*

Tarde de vento.
Até as árvores
querem vir para dentro.

*

rio do mistério
que seria de mim
se me levassem a sério?

*

a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece

*

A noite me pinga
uma estrela no olho
e passa.

*

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

*

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando

*

noite alta lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa

*

Inverno
É tudo o que sinto
Viver
É sucinto

*

tudo claro
ainda não era o dia
era apenas o raio

*

essa idéia
ninguém me tira
matéria é mentira

*

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase

*

amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o

*

vazio agudo
ando meio
cheio de tudo

*

Acordei bemol
Tudo estava sustenido

Sol fazia
Só não fazia sentido

*

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

*

dia sem senso
acendo o cigarro
no incenso

Paulo Leminski

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