Soneto VIII


A uma freira que se fazia sangrar para lenitivo das comichões que sofria nos antípodas da boca

Põe-se a toalha, chega-se a bacia,
A lanceta na mão, pé na água quente,
Assustado o barbeiro, e reverente
Para a freira voltado assi dizia:

Se dá licença, vossa senhoria...
Pico?... ‹Sim, Ihe diz ela, e tão valente
Que parecia só estar doente
Por pica Ihe faltar naquele dia!

A sangria do barbeiro então se aplica,
E cuidando ao picar a freira morra,
Ela Ihe diz valente: Pica, pica:

E verás nesse sangue quando corra,
Que me fora melhor no que ele indica,
Se em lugar de lanceta fosse porra!

António Lobo de Carvalho

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